Escute, o som é livre: será?


Hoje a Folha de SP veiculou propaganda de página inteira.

Qual a “novidade” não tão nova, tampouco tão criativa?

O serviço ESCUTE para streaming e dowload de músicas; tudo legalizado.

Que bom!

Nem tanto.

Parte do anúncio na Folha diz: “(…) música é um bem democrático para ser compartilhado e acessível a todos, e o ESCUTE entendeu isso.”

Podemos então compartilhar as músicas na Internet, com amigos e família? Não. A distribuição e compartilhamento depende de autorização prévia do titular, conforme diz a lei de direito autoral em vigor. Humm… entendi.

Mas então pelo menos é “acessível a todos”!

Eu, por exemplo, posso pagar o preço estipulado para download ilimitado – desde que a música seja parte do catálogo do portal. Basta pagar o “valor mensal de R$ 14,99″ nos três primeiros meses de assinatura e, daí em diante, R$ 19,99 por mês. Que bom!

Bom, não é bem assim… Se você, como eu, usa GNU/Linux, ao invés de Windows, ou se você é mais moderninho e usa Mac, pode desistir: não é tão acessível assim a todos. Por quê? Vem com DRM, as famosas travas “tecnológica[s] para o uso controlado”. Isso mesmo, assim que está escrito no contrato dos termos de uso.

Isso porque essas travas anticópia não são compatíveis com GNU/Linux nem com Mac. Elas vêm no formato WMA para Windows ou OMA, para celulares.

Mas e se eu quiser apenas baixar do Windows de um amigo e aí transferir a música para meu iPod, posso? Bem, o contrato lhe autoriza, sim, a transferir o arquivo até 3 vezes para dispositivos móveis. Que bom; então resolvido! Nem tanto. O DRM que vem no arquivo não é compatível com iPod…

Ok, mas não uso GNU/Linux, não uso Mac, não tenho iPod. Uso Windows mesmo! Então está tudo certo, correto? Pago os R$ 19,99/mês por alguns meses, o que me dá direito a download ilimitado e, quando eu achar que tenho música o suficiente, cancelo o serviço e paro de pagar a mensalidade. Igual eu sempre fiz quando comprava CDs. Comprava vários num mês, nenhum em outro mês, uns 2 no mês seguinte. Enfim, pagava só quando queria algo novo. O que eu já tinha comprado ficava comigo, afinal eu já tinha pago pelos CDs. Certo?

Errado! Segundo o contrato do “novo” serviço, depois que você parar de pagar a mensalidade, as músicas pelas quais você já pagou ficam indisponíveis para você. Não entendeu? Então leia o contrato: “Em todos os tipos de assinatura prevendo downloads ilimitados, a disponibilidade dos Conteúdos ficará sujeita à manutenção da assinatura por parte do Assinante. Uma vez encerrada a assinatura do Assinante, ou caso o mesmo se torne inadimplente, os Conteúdos ficarão indisponíveis para quaisquer usos.”

Isso mesmo: as músicas pelas quais você pagou vão evaporar… (isso é tecnicamente possível graças ao DRM).

E tem mais; clicando OK no contrato, você também concorda em receber “qualquer tipo de publicidade e divulgação dos Conteúdos disponibilizados no Serviço Escute e de seus parceiros” (grifei). Não há opt-out – se você não quiser receber publicidade, seja do Escute, seja de parceiros, mesmo assim irá receber.

Antes que haja interpretações apressadas sobre minha opinião: serviços legalizados para download ilimitado de música são muito bem-vindos. Desde que: não tenham DRM, tenham preço justo (já que música digital pela Internet tem custo consideravelmente inferior), tenham um catálogo culturalmente diverso e sejam user-friendly para os usuários. E, claro, que uma fatia justa seja repassada para os artistas, e não constrangedores 10%.

Fica a dica para os criadores do Portal lerem alguns relatórios e estudos sobre música digital (veja nota abaixo).*

E o anúncio na Folha termina assim: “Por um preço pequenininho e dentro da lei. Bom pra você, pra mim, pra todo mundo.”

Será?

—————

* Nota: estudos e relatórios sobre o mercado digital de música - William Fisher (Harvard); Neil Netanel (UCLA — em PDF); Daniel Gervais (Vanderbilt — em PDF); University of Hertfordshire (Inglaterra); Universidade de Harvard; Maastricht research school of Economics of TEchnology and ORganizations (METEOR) – School of Business and Economics; IpsosElectronic Frontier Foundation (EFF)Universidade de Amsterdam em conjunto com o TNO Information and Communication Technology e com o SEO Economic Research, a pedido do Ministério da Educação, do Ministério da Economia e do Ministério da Justiça da Holanda.

  1. Excelente, artigo, Pedro.

    Ao meu ver, o pior desse serviço é que, com o término do contrato , as músicas ficam indisponíveis para o usuário/adquirente.

    Eu lhe pergunto uma coisa: embora o site se refira à compra de música, não estaríamos, na realidade, com um serviço de “aluguel” de música?

    Aliás, esse formato DRM dá muito poder às gravadoras/lojas.

    Um serviço que ignora outros sistemas operacionais fornece músicas no odioso formato DRM já está condenado ao fracasso.

    Abraços,

    Walter

  2. Triste que no puedo portugués, pero acá va mi comentario:

    Pienso que lo problemático de esto es el hecho de que este tipo de servicios toman control de la estructura de distribución y por ende del contenido mismo, llegando al punto de “jardín cerrado” o “walled garden” como dicen por ahí. Al final no se paga por el contenido, sino por los derechos de acceso al contenido.

    Es una trampa sucia.

  3. Só para constar: O Globo veiculou anúncio igual neste domingo. Claro.

    • Leonardo Ribeiro da Cruz
    • February 7th, 2011

    Muito bom texto, Pedro.
    Há algum tempo podemos perceber que as indústrias fonográficas vêm elaborando estratégias de inserção na internet, principalmente naquilo que elas afirmam ser “compartilhamento de arquivos”. Nada mais justo, pois todos sabem que certos usos da internet inauguraram diversos modelos de negócio para as indústrias culturais e que a adaptabilidade para esses modelos é o que vai pautar um novo avanço do mercado fonográfico em geral (já está marcando, principalmente nos circuitos fora da “grande indústria). Contudo, vemos também que tais modelos de inserção não são acompanhados por um “relaxamento” das estratégias de repressão ao verdadeiro compartilhamento de arquivos, seja por leis repressivas (3 strikes por aí), por travas eletrônicas (drm desenfreado, cada vez mais controlativo e sempre tecnicamente ineficiente) e/ou por argumentos moralizantes e depreciativos (“pirataria é crime”). Ao meu ver, não há uma contradição na atuação dessas duas estratégias – de inserção e de repressão – mantidas pela indústria criativa. As estratégias repressivas continuarão sendo utilizadas para impedir um tipo de utilização da internet enquanto apontam esses ambientes controlados como a unica solução segura e legal de aquisição de bens culturais digitalizados. Não é preciso dizer que tal conjunto de estratégias está fadada ao fracasso…

    • gustavo pacianotto gouveia
    • February 8th, 2011

    Não sei nada sobre DRM, mas… se essa versão bloqueia o uso após o cancelamento da conta, então o uso também está vinculado ao acesso à internet, certo?
    como esta verificação é feita??? Se eu baixar, desconectar o meu PC da rede e desativar a minha conta, isso vai parar de funcionar? Sendo assim, isso passa a ser mais absurdo ainda. Pois o conteúdo não é “Downloadeável”, e sim manualmente “bufferizado”. Né não?

      • Antonio
      • March 6th, 2011

      Sim ele depende da internet, vc baixa o arquivo normalmente em .WMA, dentro deste arquivo tem uma licença, ao abrir ele verifica ela na internet ( somente windows pois o itunes e qualquer conversor vai lha avisar que e impossivel converter arquivos WMA com DRM) se vc ficar sem internet por uma semana a kicença expira e vira um arquivo morto no pc, como ZIP com senha e vc nao sabe ela. Ate vc conectar o pc novamente e claro ter pago esta palhacada, mais se vc grava a musica em um cd e copiarla novamwnte adeus DRM ou usar um software chamado soundtaxi

  4. Excelente artigo, Paranaguá. Mostra toda a pilantragem por trás desse “esquemas” legalizatórios de compartilhamento de conteúdo na rede.

    • J.C
    • February 8th, 2011

    É cada uma…
    Concordo com o Emilio, trapaça social!

    “música é um bem democrático que deve ser compartilhado e acessível à todos”

    FATO! pena que ao contrário do que diz a matéria, o ESCUTE NÃO ENTENDEU ISSO!

    • Eduardo Rosa
    • February 23rd, 2011

    Caros,

    Vamos imaginar a seguinte situacao …. pelos comentarios colocados o que voces esperam é ter um restaurante onde voce paga 20 reais e come a vontade … mas come a vontade nao somente na hora da refeicao a qual voce pagou para consumir … come a vontade a semana inteira … ou melhor o mes inteiro … ou melhor o ano inteiro … a vida inteira ….

    Como voces acham que se fecha uma conta como a que voces imaginam …

    - quem para as despesas do artista que gastou seu tempo para compor a musica

    - quem paga as despesas do artista que interpretou a musica

    - quem paga as despesas de gravacao

    - quem paga as despesas de divulgacao ( ou voces acham que a musica para tocar em uma radio … toca de graca ??? – ahh voces tambem acreditam em papai noel, coelho da pascoa … )

    - quem paga o marketing

    - quem paga a distribuicao

    O que acontece no mundo e no Brasil principalmente … é que como Musica, programas de computador e outros produtos semelhantes sao ativos intangiveis …. o publico consumidor ou parte dele passam a acreditar que nao existe custo e que tudo nao passa de uma grande farsa da industria A B C ou D.

    Eu queria saber se voces achariam justo, trabalharem para mim o mes inteiro e o resto de suas vidas recebendo um unico pagamento que me daria direito a suas vidas.

    Voces tem que entender que, mesmo sendo um ativo intangivel …existem investimentos, despesas, muito trabalho e risco para que o produto chegue até voces depois de muita luta e suor.

    Entao da proxima vez que analisarem um modelo de negocios, antes de imaginar a possibilidade de nao ser justo … analisem o custo e o trabalho de milhares de pessoas envolvidas em um mercado que tem necessariamente que gerar receita, lucro para poder gerar renda.

    Sobre a questao do DRM, sim e necessario para viabilizar um modelo de assinatura … senao o que voces imaginam … pagar 20 reais e no primeiro mes baixar 1 milhao de musicas e nunca mais pagar nada ????

    Como fazer para pagar as despesas e investimentos para produzir e disponibilizar estas musicas para voces ?

    Esta é a mesma postura que vemos todo dia nos jornais … gente imaginando que por exemplo nao deveria existir a cobranca mensal de assinatura no servico de telefonia ….

    So pensa desta maneira quem nao respeita o investimento, o trabalho, e o esforco alheio.

    Alguem para colocar um servico, produto no ar investe, corre riscos, luta para gerar um negocio viavel e para ser viavel tem que ser rentavel.

    Por isso imagino que a analise feita é no minimo descabida, pois compara a liberdade ou a democratizacao do acesso a necessidade de gratuidade ou de preco incompativel com a realidade de custos de producao do conteudo que se quer consumir.

    Voce trabalharia pra mim por 20 reais por mes ?

    • eojir
    • February 27th, 2011

    Eduardo Rosa a sua analogia está errada. A analogia to restaurante está totalmente errada.

    No restaurante você voltaria ao lugar para pegar mais coisas.
    No caso do site não, você já pegou as musicas, e vai continuar usando.

    Para sua analogia do restaurante ser igual ao site talvez teria que ser assim.
    A pessoa chega no restaurante e paga e pode comer o que ela quiser, mas ela está comendo e comendo sem parar e o restaurante resolve fechar pois o dia está acabando, só que o problema é que o restaurante falou que o cara podia comer o quanto ele quisesse e tem gente ainda lá dentro comendo.

    A analogia do pagamento e trabalho tb está errada. Se o cara baixasse as musicas de um artista e depois ficasse com elas. Ele não poderia pegar as musicas futuras do artista se não pagasse. Ou seja não aconteceria como na sua analogia que o cara pagou e depois a pessoa trabalhou de graça.

    Se o cara não está pagando pela musicas, como por exemplo no last.fm que vc paga para ouvir as radios em streamming tudo bem. Mas eles tem que especificar isso. Especificar que o download não é seu.
    As dispesar de royaltes de musica na internert são extremamente caras eu sei (bem pelomenos no USA é) e muitas sites de musica USA estão a beira da falência, e alguns chegam até a restringir o os paises de acesso para reduzir custos.

    Mas o site tem que específicar sobre o que ele é, e como ele funciona. Ele não especificou e o cara está reclamando especificamente isso, ele simplesmente está demonstrando a propaganda meio que enganosa.

  5. isso e uma vergonha…nem acredito no q acontece com a nossa musica popular brasileira q e tao venerada e os artistas ainda aceita isso.

    • Gerson
    • March 21st, 2011

    Bom artigo Pedro,

    Pra pensar… Um arquiteto, escultor ou pintor, recebe uma unica vez por cada obra, e todos podem vê-la sem pagar outra vez por cada apreciação, e se estes “artistas” quiserem faturar novamente, vão ter que criar outra obra.
    E pq na musica cada vez que se escuta tem de pagar por uma obra que foi digitalmente replicada milhares ou milhões de vezes?
    Pergunta? Arquivos de musica do Escute, feito o download, se gravar num CD, e for tocar num CD Player do carro ou de mesa, vai funcionar?

    • Leonardo Storch
    • May 17th, 2011

    Durou pouco, para a nossa “felicidade” o serviço que ao meu ver desrespeitava o consumidor… SAIU DO AR!

    • lucius
    • October 19th, 2011

    essa mierda de site nem ta funcionando lixo lixo lixo gastam dinheiro pra nada em veicular um site que nasceu morto pois nesse pais quem tenta fazer de forma certa e errado parabens pirataria…

  1. February 6th, 2011
  2. February 11th, 2011
  3. February 18th, 2011
    Trackback from : Escute!! | Sortimento

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